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As Obras Subsidiárias do Espiritismo - programa dos dias 12 e 15 fevereiro de 2012



PARA BAIXAR O ARQUIVO DE ÁUDIO DO PROGRAMA CLIQUE A Q U I

VI.1 OBRAS BÁSICAS

a. O Principiante Espírita:

c. Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas (1858)- contém o “Definições Espíritas”: http://www.4shared.com/document/Nz7uTchM/Allan_Kardec_-__1858__Instruo_.htm

d. O Espiritismo na Sua Expressão Mais Simples – 1862 - (acrescido dos livros Caráter da Revelação Espírita e Catálogo Racional das Obras para se Fundar uma Biblioteca Espírita): http://www.4shared.com/get/Bf6zRQGL/O_Espiritismo_na_sua_expresso_.html

e. Viagem Espírita de 1862 (e viagens de outros anos): http://www.4shared.com/get/PyLvELFs/Viagem_Esprita_em_1862_-_Allan.html

f. Refutação das Críticas Contra O Espiritismo: http://www.4shared.com/office/rUdw2xvT/Allan_Kardec_-_Refutao_das_Crt.html

g. Resumo das Leis e dos Fenômenos Espíritas (1864): http://www.4shared.com/office/kLH-aF_F/Allan_Kardec_-__1864__Resumo_d.html

h. Resposta à Mensagem dos Espíritas Lioneses por Ocasião do Ano Novo – 1862

i. Coleção de Composições Inéditas - 1865

j.Estudo Acerca da Poesia Medianímica – 1867

VI.2 . OBRAS FUNDAMENTAIS

a. 1857 - O Livro dos Espíritos (J Herculano Pires)http://www.aeradoespirito.net/LivrosCodEspirita/OLivrodosEspJHP.pdf

b. 1861 - O Livro dos Médiuns (J Herculano Pires)http://www.aeradoespirito.net/LivrosCodEspirita/OLivrodosMediunsJHP.pdf

c. 1864 - O Evangelho Segundo O Espiritismo (J Herculano Pires)http://www.aeradoespirito.net/LivrosCodEspirita/OEvansegoEspJHP.pdf

d. 1865 - O Céu e o Inferno (J Herculano Pires)http://www.aeradoespirito.net/LivrosCodEspirita/OCeueoInfJHP.pdf

e. 1868 - A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o espiritismo (CELD

VI. 3. OBRAS SUBSIDIÁRIAS

a.     Obras Póstumas: Notícia Sobre o Livro – por J Herculano Pires

Publicado vinte e dois anos após o lançamento da última obra de Kardec, A Gênese, com que ele encerrou a Codificação, Obras Póstumas apresenta vários trabalhos do mestre que nunca haviam aparecido em livro. Na verdade, a maioria já havia sido publicada na Revista Espírita, logo após o seu passamento, como os leitores poderão verificar consultando o volume da coleção correspondente ao Ano de 1869. O que se conservou inédito até 1890 foi o material constante da segunda parte deste volume, intitulado Transcrições in-extenso do Livro das Previsões Referentes ao Espiritismo, assim mesmo com exceção da Constituição do Espiritismo, também já divulgada, embora sem os comentários que Kardec reservara para mais tarde.

A importância deste volume é inegável e nenhuma objeção se pode fazer à legitimidade dos trabalhos que o constituem. A publicação anterior na Revista, com antecedência de cerca de vinte anos, neutralizou as críticas que geralmente ocorrem nesses casos. Apesar disso, há ainda pessoas que levantam suspeitas infundadas quanto à validade deste livro, o que por sinal em nada o afeta, principalmente para os que se dão ao trabalho de lê-lo e analisá-lo. Só lamentamos que não se tenham publicado mais alguns volumes póstumos de trabalhos do mestre, que forçosamente os deixou em maior número, tal era a sua capacidade de trabalho e o seu desejo de abordar todos os problemas relativos ao Espiritismo. A publicação tardia de Obras Póstumas revela, infelizmente, que houve descuido nesse sentido por parte dos seus sucessores. Não se trata de uma acusação, mas apenas de um registro necessário.

Logo de início, na pequena nota de abertura, deparamos com todo o drama de Kardec. É o aviso Aos assinantes da Revista, declarando que essa publicação e todas as obras doutrinárias do mestre foram essencialmente obra e criação sua. O desmentido vem na segunda parte do volume, quando vemos que todo o trabalho da Codificação (incluindo a Revista, como o disse o próprio Kardec) resultou de uma colaboração estreita e permanente entre ele, os médiuns que o serviam, os Espíritos que o orientavam e os grupos e centros de estudos com os quais se correspondia. Vê-se estampado nessas poucas linhas o drama de um homem que, tendo-se adiantado ao seu tempo, teve de enfrentar a incompreensão e o despeito dos que desejavam fazer doutrina acima dele.

A responsabilidade espiritual de Kardec era enorme e ele não podia partilhá-la a não ser com aqueles que traziam à Terra a missão de ajudá-lo. Muitas vezes quis servir-se de pessoas que julgava aproveitáveis, mas os Espíritos Superiores o advertiam em sentido contrário. Kardec se retraía e os seus companheiros atribuíam essa atitude às suas possíveis ambições de predomínio. O próprio Flammarion, à beira do túmulo, não o acusou de fazer obra um tanto pessoal? Essa acusação se repete de maneira mais violenta e incisiva na nota da Revista em junho de 1869, três meses após a desencarnação do mestre que serve de abertura para o texto geral de Obras Póstumas. Longe disso, porém, Kardec procurava colaboradores e sofria por não encontrá-los. A obra não era pessoal, mas a responsabilidade da sua atualização na Terra tornou-se quase pessoalíssima em virtude da falta de criaturas aptas a compreendê-la. E a prova maior disso está no que fizeram da Revista e da Sociedade após a sua passagem para a vida espiritual.

Este livro representa o testamento doutrinário de Allan Kardec. Reúne os seus derradeiros escritos e as anotações íntimas, destinadas a servir mais tarde para a elaboração da História do Espiritismo que ele não pode realizar. Vemos aqui a sua plena confirmação dos ensinos dados nas obras anteriores e a justificação de muitas de suas atitudes mal compreendidas pelos contemporâneos. Esta obra precisa ser lida com atenção e respeito. Ela nos desvenda os segredos de uma vida missionária. Quanto à grandeza dessa missão basta vermos o que os próprios Espíritos Superiores dizem em suas comunicações aqui reproduzidas. Na mensagem intitulada Minha Missão, de 12 de abril de 1860, vemos que os Espíritos sábios ficarão felizes de poder assisti-lo, e mais: quantos entre eles desejariam cumprir a sombra dessa missão!

No final deste volume encontramos o modelo de que se serviram os espíritas brasileiros para fundar o Movimento de Unificação.

É ele a Constituição do Espiritismo, um dos últimos trabalhos de Kardec, com o qual o mestre pretendia orientar os que ficavam, de maneira a poderem manter ao mesmo tempo o serviço de divulgação e o desenvolvimento da Doutrina, sem prejuízo de seus postulados de liberdade e responsabilidade. Ressalta desse esboço, o espírito liberal de Kardec, a sua profunda convicção de que o homem é um ser livre, de cuja liberdade depende o seu desenvolvimento espiritual como personalidade responsável. A respeito deste problema, que tanto preocupa o nosso século, a posição do Espiritismo é inequívoca e os leitores poderão encontrar, neste volume, trabalhos esclarecedores de Kardec, como As Expiações Coletivas em que a antinomia (destino versus livre-arbítrio) é colocada em termos precisos, Liberdade, Igualdade e Fraternidade (que oferece uma visão clara e objetiva da problemática social à luz da Doutrina) e As Aristocracias (que completa essa visão com um esquema histórico da evolução política da Humanidade). Esse trabalho abre também as perspectivas do futuro humano com a tese da aristocracia intelecto-moral.

J. Herculano Pires - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora

b. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos.

O êxito de O Livro dos Espíritos fez com que chegassem cartas de todos os países: dúvidas, experiências, consolação e críticas;

Em vez de responder a uma pessoa por vez, Allan Kardec pode comunicar-se com todos, simultaneamente;

Histórico: 15 de novembro de 1857 - (Em casa do Sr. Dufaux; médium: Sra. E. Dufaux)

“NOTA — Apressei-me a redigir o primeiro número e fi-lo circular a 1º de janeiro de 1858, sem haver dito nada a quem quer que fosse. Não tinha um único assinante e nenhum fornecedor de fundos. Publiquei-o correndo eu, exclusivamente, todos os riscos e não tive de que me arrepender, porquanto o resultado ultrapassou a minha expectativa. A partir daquela data, os números se sucederam sem interrupção e, como previa o Espírito, esse jornal se tornou um poderoso auxiliar meu. Reconheci mais tarde que fora para mim uma felicidade não ter tido quem me fornecesse fundos, pois assim me conservara mais livre, ao passo que outro interessado houvera querido talvez impor-me suas idéias e sua vontade e criar-me embaraços. Sozinho, eu não tinha que prestar contas a ninguém, embora, pelo que respeitava ao trabalho, me fosse pesada a tarefa.” In: Obras Póstumas

Revista publicada de 01/01/1858  até abril de 1869, portanto, 11 anos e 4 meses;

Nela encontramos a história viva das origens do espiritismo;

A Revista Espírita fez um extraordinário sucesso, recebendo assinantes em todos continentes, das classes sociais mais carentes até os tronos de reis;

Foram 4409 páginas escritas no original francês, mais de 125 artigos por ano, sem interrupção;

Kardec publicara na Revista Espírita 1453 artigos doutrinários;

A Revista está incrivelmente atualizado até hoje;

A editora FEB publicou-os em 12 volumes;

Apresenta enorme qualidade didática (leia da capa a contracapa);

Introdução do Primeiro número: traça as diretrizes, esclarece os objetivos da revista;

Transformou-se em TRIBUNA LIVRE, “na qual, porém, a discussão não deverá nunca sair das regras da mais estrita conveniência”. “Discutiremos, não disputaremos”;

A RE constitui-se em “Poderoso auxiliar” de Kardec para dialogar com adeptos;

Nela pode expor fatos e acontecimentos aos pesquisadores, para “submetê-los ao escalpelo da observação”, extraindo reflexões, conceitos, consequências e conclusões racionais;

Através da RE Kardec mantivera os espíritas atualizados sobre experiências, acontecimentos e progressos da doutrina;

Com ela o Codificador ensina a prevenção contra os exageros da credulidade  e o cepticismo;

Nela comentara, por vezes em textos extensos, sobre fragmentos de livros, documentos, artigos - de épocas diversas- mostrando aplicação e relação com a Nova Doutrina;

Analisara na Revista notícias da imprensa, à luz do espiritismo. “são para os espíritas mina inesgotável de observações e instruções”;

Na Revista Espírita Allan Kardec apresentara produções mediúnicas sérias, comunicações relevantes, algumas em prosa e verso, recebidas de várias partes do mundo, criteriosamente escolhidas;

Kardec também usara a Revista para desvelar as relações da arte com a doutrina espírita;

Na Codificação estão mensagem, e por vezes capítulos, que já haviam sido publicados na REVISTA;

O Codificador também se utilizara da Revista Espírita para consolar pessoas que perderam seus familiares;

A RE se constituiu em poderosa ferramenta para esclarecer obsidiados, amparar criminosos, promover a caridade, promover a educação;

Teve de reimprimir as edições de 1858, 1859, e 1860, em virtude do grande numero de novos pedidos.

A Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos (1858 a 1869)

Artigo: Palavra Dura


PALAVRA DURA
“Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” (João 6:60)
 Autor: Fabiano Pereira Nunes

Artigo publicado na REVISTA CULTURA ESPÍRITA, do Instituto de Cultura Espírita do Brasil - ICEB, ano IV, n 35, fevereiro de 2012, p.15.

Na época presente, observa-se grande demanda por indivíduos que saibam transitar habilmente pela arte da boa articulação política, tendo em vista a necessidade de estabelecer alianças, pessoais e profissionais, produtivas. Evolução das relações, a finura e a destreza - interinstitucionais e interpessoais - estão entre os principais instrumentos para a aquisição de uniões frutuosas.

Nada obstante, a ambição desmedida pelo sucesso tem arrastado muitos às condições extremas da diplomacia, chegando à venalidade e à cupidez, empalidecendo os sentimentos mais justos e cristalinos, em detrimento da franqueza e da sinceridade.

Isso porque temos grande dificuldade em delimitar as tênues fronteiras entre a polidez e a falsidade, a civilidade e a pusilanimidade, a fineza apurada e a hipocrisia. Diante desse desafio, nunca será demais recordar que temos em Jesus o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode pretender(1-2) na Terra.

O Filho do Homem sempre demonstrara impar transparência de sentimentos, prova de um caráter reto e de nobres propósitos. Para qualquer pessoa tornava-se assaz fácil fazer a leitura de Suas legítimas intenções.

Sem dissimulação, discorria com lisura e firmeza, ao ponto de - segundo apreendemos em João(3)- muitos dos discípulos e seguidores que já O acompanhavam desistirem do Evangelho:

A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e não mais andavam com ele”(3).

No entanto, em uma postura de incomensuráveis transparência e franqueza, Jesus voltara-se para Os Doze Apóstolos, questionando-os, à “queima roupa”:

“Não quereis também vós partir?”

Raramente na história alguém procedeu com tanta diafaneidade de atitude para com seus seguidores.

Também se ressalta(4) que Jesus sempre estivera sob o açodar das arguições dos Doutores da Lei. De todas as maneiras, buscavam colocá-Lo em contradição, ou mesmo em oposição, às Leis Judaicas – conquanto – o discurso de Jesus transcendia em inteligência até emudecê-los, em razão de Suas argumentações insofismáveis. A argúcia de Suas exposições só era superada pela Sua vida, reta e incorruptível. Foi por essa razão que Jesus, duramente, refutara aos Doutores:

- “Quem dentre vós, me acusa de pecado?”(4).

A tradução dessa expressão traz por significado inquirir quem, dentre todos os presentes, poderia apontar uma única situação na vida de Jesus que pudesse ser criticada, ou pelo menos apontar alguma atitude, palavra ou pensamento, que pudesse ser qualificada como “pecaminosa”. Inolvidável combinação de cristalinidade de sentimentos e atitude máscula.

Notavelmente, os discursos do Rabban(5) de Deus nas sinagogas constituíam magníficas exemplificações de virilidade e translucidez de caráter, criticando com lucidez e destemor os comportamentos que estivessem em desacordo com as Leis de Deus:

Assim falou ele, ensinando na sinagoga em Cafarnaum. Muitos de seus discípulos, ouvindo-o, disseram: Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la? Compreendendo que seus discípulos murmuravam por causa disso, Jesus lhes disse: Isto vos escandaliza?”(6)

Allan Kardec, em sua condição de apóstolo de O Espírito de Verdade(7), desvela as mais excelentes interpretações para o Novo Testamento, e, por conseguinte, para a complexa questão da demarcação entre a fingida bonomia e a verdadeira afabilidade. Notadamente em O Evangelho Segundo O Espiritismo(8-9), o dileto emissário do Cristo dá publicidade aos ensinos sobre o melhor proceder: nunca agir com dissimulação ou hipocrisia, mas ao contrário, desenvolver a sincera benevolência ao próximo, usando a clareza, a sinceridade e a bondade como poderosas ferramentas para promover o bem e a verdade, sem condescender com o erro, e sem renunciar a crítica construtiva e a reprovação do mal, com o estrito intuito de desmascarar o delito no interesse da caridade para com maioria.

Incorporemos, pois, as palavras duras – porém redentoras - de Jesus e Seu dileto apóstolo Allan Kardec, com o fito de balizar a melhor fronteira entre a afabilidade e a falsidade, para que não nos percamos em labirintos de hipocrisia, sempre criticada contundentemente pelo Mestre Maior.

1.       KARDEC, Allan. Le Livre Des Esprits. Quatorzième Édition. Didier Et Cie Libraires-Éditeurs, Paris: 1866. Q.625. p. 268. Tradução da questão 625 [...] “Jésus est pour l homme le type de la perfection morale à laquelle peut prétendre l humanité sur la terre” [...] feita pelo articulista.

2.       Nota: As primeiras edições francesas de O Livro dos Espíritos, assim como as demais obras de Allan Kardec, podem ser lidas no site “Google Livros”, através da URL <http://books.google.com.br/books?id=XC44AAAAMAAJ&dq=le%20livre%20des%20esprits&hl=pt-br&pg=PP7#v=onepage&q&f=false> .

3.       BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002. 3 a. Impressão: 2004. O Evangelho Segundo João, cap. 6, versículos 66 e 67. p. 1860

4.       Idem. O Evangelho Segundo João, Cap. 8, versículo 46. p. 1866.

5.       Dentre os mestres hebreus (Rabbi), Rabban significava Mestre Superior.

6.       BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002. 3 a. Impressão: 2004.. O Evangelho Segundo João, Cap. 6, versículos 59 a 61. p. 1859.

7.       KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Albertina Escudeiro Sêco. 5. Ed., Rio de Janeiro: CELD Ed, 2010. Cap. VI, item 6, p. 135.

8.       Idem. Ibidem. Cap. IX. p. 165-172.

9.       Idem. Ibidem. Cap. X, itens 19 ao 21. p. 186-187.

Artigo: Comunicações Espirituais



COMUNICAÇÕES ESPIRITUAIS

(autor Fabiano Pereira Nunes)

Artigo publicado na REVISTA CULTURA ESPÍRITA, do Instituto de Cultura Espírita do Brasil – ICEB, ano IV, no 34, janeiro de 2012, p.15.

“E os espíritos impuros, assim que o viam, caíam a seus pés e gritavam: Tu és o Filho de Deus! E Ele os conjurava severamente para que não o tornassem manifesto” (Marcos 3:11-12)

Encontramos relatado em O Novo Testamento que Jesus sempre estivera seguido por grandes multidões.

No Evangelho Segundo Marcos(1) temos a notícia de que todos os que sofriam de alguma enfermidade lançavam-se sobre Ele, para O tocar. Notavelmente, até mesmo os espíritos inferiores, assim que o viam, caíam aos seus pés e clamavam: “Tu és o Filho de Deus!” No entanto, Jesus os repreendia severamente, para que silenciassem.

Nesse, como em muitos outros versículos da Bíblia, poder-se-ia garimpar preciosíssimas lições por entre as minúcias dos textos sagrados, no que diz respeito à interpretação das comunicações dos espíritos desencarnados.

Observa-se que O Mestre reprime a manifestação dos espíritos “Tu és o Filho de Deus!”, não obstante, em primeira apreciação, a assertiva estivesse absolutamente correta, posto que Jesus é o Messias esperado pelo povo hebreu. Em um julgamento inicial, seria até natural atribuir utilidade ao que fora dito pelos espíritos curados pelo Cristo, malgrado, aplicando acurada análise crítica, perceberemos que Ele, ao recriminar aquelas comunicações, estaria se evadindo de lisonja desnecessária.

Tais advertências ainda constituem motivo de graves preocupações até o tempo presente. Dentre as dificuldades da prática mediúnica, diferenciar as comunicações de espíritos sábios daquelas dos espíritos pseudossábios sempre foi uma das mais difíceis e desafiadoras.

Allan Kardec, o mais fiel intérprete de O Espírito de Verdade, publicara reiteradas advertências sobre essa matéria.  Em A Revista Espírita(2), O Codificador assim articulara: “Os Espíritos bons aprovam aquilo que acham bom, mas não fazem elogios exagerados. Estes, como tudo que denota lisonja, são sinais de inferioridade da parte dos Espíritos.

Sobretudo nos dias atuais, em que proliferam livros classificados como mediúnicos, mas que são - em verdade - não doutrinários e anti-doutrinários, as elucidações kardecianas devem ressoar vívidas em nossa memória.

Em face da oportunidade do tema, peço licença ao prezado leitor para reproduzir, ainda de Allan Kardec, uma citação bibliográfica(3) um pouco mais extensa, mas de suma importância para aclarar a circunspecção que a matéria exige:

[...] “ora, prova a experiência que os maus se comunicam tão bem quanto os bons. Os que são francamente maus são facilmente reconhecíveis; mas há também, entre eles, os semi-sábios, os falsos sábios, os presunçosos, os sistemáticos e até os hipócritas; Estes são os mais perigosos, porque afetam uma aparência de gravidade, de sabedoria e de ciência, em favor da qual enunciam, em meio a algumas verdades e boas máximas, as coisas mais absurdas. E, para melhor enganar, não receiam odorar-se com os nomes mais respeitáveis. Separar o verdadeiro do falso, descobrir o embuste escondido numa exibição de palavras bonitas, desmascarar os impostores, eis aí, sem contradita, uma das maiores dificuldades da Ciência Espírita. Para superá-la, faz-se necessária uma longa experiência, conhecer todas as astúcias das quais são capazes os Espíritos de baixa classe, ter muita prudência, ver as coisas com o mais imperturbável sangue frio, e, sobretudo, guardar-se contra o entusiasmo que cega. Com habilidade e um pouco de tato chega-se facilmente a desmascará-los, mesmo sob a ênfase da mais pretensiosa linguagem. Mas infeliz o médium que se julga infalível, que se ilude sobre as comunicações que recebe: o Espírito que o domina pode fasciná-lo ao ponto de fazê-lo achar sublime o que, frequentemente, é apenas absurdo e salta aos olhos de todos, menos aos seus.”[...]

Os espíritos não são semideuses, mas os homens e mulheres que viveram na Terra. Porquanto, instruamo-nos sempre em Jesus e Allan Kardec, a fim de incorporarmos em nossas vivências mediúnicas o hábito de sopesar, arguir e criticar categoricamente tudo que provêm dos espíritos desencarnados, ainda que sob a assinatura de nomes respeitáveis ou admirados.

1. BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002. 3 a. Impressão: 2004. O Evangelho Segundo Marcos 3:7-12 p. 1763.

2. KARDEC, Allan: ”Aforismos Espíritas e Pensamentos Avulsos”. Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos.  Ano II, Dezembro de 1859. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed., 2ª reimp. Rio de Janeiro : FEB, 2009. p 534.

3. Idem: “Formação da Terra”. Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos. Ano III, abril de 1860. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. Ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. p. 171.

Codificação Kardeciana: Básicas, não! Fundamentais, sim!









Introdução ao "O Livro dos Espíritos" , elaborada por J Herculano Pires:

<< Com este livro, a 18 de abril de 1857, raiou para o mundo a era espírita. Nele se cumpria a promessa evangélica do Consolador, do Paracleto ou Espírito da Verdade. Dizer isso equivale a afirmar que "O Livro dos Espíritos" é o código de uma nova fase da evolução humana. E é exatamente essa a sua posição na história do pensamento. Este não é um livro comum, que se pode ler de um dia para o outro e depois esquecer num canto da estante. Nosso dever é estudá-lo e meditá-lo, lendo-o e relendo-o constantemente.

Sobre este livro se ergue todo um edifício: o da Doutrina Espírita. Ele é a pedra fundamental do Espiritismo, o seu marco inicial. O Espiritismo surgiu com ele e com ele se propagou, com ele se impôs e consolidou no mundo. Antes deste livro não havia Espiritismo, e nem mesmo esta palavra existia. Falava-se em Espiritualismo e Neo-Espiritualismo, de maneira geral, vaga e nebulosa. Os fatos espíritas, que sempre existiram, eram interpretados das mais diversas maneiras. Mas, depois que Allan Kardec o lançou à publicidade, "contendo os princípios da Doutrina Espírita", uma nova luz brilhou nos horizontes mentais do mundo.

Há uma seqüência histórica que não podemos esquecer, ao tomar este livro nas mãos. Quando o mundo se preparava para sair do caos das civilizações primitivas, apareceu Moisés, como o condutor de um povo destinado a traçar as linhas de um novo mundo: e de suas mãos surgiu a Bíblia. Não foi Moisés quem a escreveu, mas foi ele o motivo central dessa primeira codificação do novo ciclo de revelações: o cristão. Mais tarde, quando a influência bíblica já havia modelado um povo, e quando este povo já se dispersava por todo o mundo gentio, espalhando a nova lei, apareceu Jesus; e das suas palavras, recolhidas pelos discípulos, surgiu o Evangelho.

A Bíblia é a codificação da primeira revelação cristã, o código hebraico em que se fundiram os princípios sagrados e as grandes lendas religiosas dos povos antigos. A grande síntese dos esforços da antigüidade em direção ao espírito. Não é de admirar que se apresente muitas vezes assustadora e contraditória, para o homem moderno. O Evangelho é a codificação da segunda revelação cristã, a que brilha no centro da tríade dessas revelações, tendo na figura do Cristo o sol que ilumina as duas outras, que lança a sua luz sobre o passado e o futuro, estabelecendo entre ambos a conexão necessária. Mas assim como, na Bíblia, já se anunciava o Evangelho, também neste aparecia a predição de um novo código, o do Espírito da Verdade, como se vê em João, XIV. E o novo código surgiu pelas mãos de Allan Kardec, sob a orientação do Espírito da Verdade, no momento exato em que o mundo se preparava para entrar numa fase superior do seu desenvolvimento.

Hegel, em suas lições de estética, mostra-nos as criações monstruosas da arte oriental, — figuras gigantescas, de duas cabeças e muitos braços e pernas, e outras formas diversas, — como a primeira tentativa do Belo para dominar a matéria e conseguir exprimir-se através dela. A matéria grosseira resiste à força do ideal, desfigurando-o nas suas representações. Mas acaba sendo dominada, e então aparecem no mundo as formas equilibradas e harmoniosas da arte clássica. Atingido, porém, o máximo de equilíbrio possível, o Belo mesmo rompe esse equilíbrio, nas formas românticas e modernas da arte, procurando superar o seu instrumento material, para melhor e mais livremente se exprimir. Essa grandiosa teoria hegeliana nos parece perfeitamente aplicável ao processo das revelações cristãs: das formas incongruentes e aterradoras da Bíblia, passamos ao equilíbrio clássico do Evangelho, e deste à libertação espiritual de "O Livro dos Espíritos ".

Cada fase da evolução humana se encerra com uma síntese conceptual de todas as suas realizações. A Bíblia é a síntese da antigüidade, como o Evangelho é a síntese do mundo greco-romano-judaico, e "O Livro dos Espíritos" a do mundo moderno. Mas cada síntese não traz em si tão somente os resultados da evolução realizada, porque encerra também os germes do futuro. E na síntese evangélica temos de considerar, sobretudo, a presença do Messias, como uma intervenção direta do Alto para a reorientação do pensamento terreno. É graças a essa intervenção que os princípios evangélicos passam diretamente, sem necessidade de readaptações ou modificações, em sua pureza primitiva, para as páginas deste livro, como as vigas mestras da edificação da nova era.



A Codificação Espírita

1º) "O Livro dos Espíritos" não é, porém, apenas, a pedra fundamental ou o marco inicial da nova codificação. Porque é o seu próprio delineamento, o seu núcleo central e ao mesmo tempo o arcabouço geral da doutrina. Examinando-o, em relação às demais obras de Kardec, que completam a codificação, verificamos que todas essas obras partem do seu conteúdo. Podemos definir as várias zonas do texto correspondentes a cada uma delas.

Assim como, na Bíblia, há o núcleo central do Pentateuco, e no Evangelho o do ensino moral do Cristo, em "O Livro dos Espíritos" podemos encontrar uma parte que se refere a ele mesmo, ao seu próprio conteúdo: é o constante dos Livros I e II, até o capítulo quinto. Este núcleo representa, dentro da esquematização geral da codificação, que encontramos no livro, a parte que a ele corresponde. Quanto aos demais, verificamos o seguinte:

2º) "O Livro dos Médiuns", seqüência natural deste livro, que trata especialmente da parte experimental da Doutrina, tem a sua fonte no Livro II, a partir do capítulo sexto até o final. Toda a matéria contida nessa parte é reorganizada e ampliada naquele livro, principalmente a referente ao capítulo nono: "Intervenção dos Espíritos no mundo corpóreo".

3º) "O Evangelho segundo o Espiritismo" é uma decorrência natural do Livro III, em que são estudadas as leis morais, tratando-se especialmente da aplicação dos princípios da moral evangélica, bem como dos problemas religiosos da adoração, da prece e da prática da caridade. Nessa parte o leitor encontrará, inclusive, as primeiras formas de "Instruções dos Espíritos", comuns àquele livro, com a transcrição de comunicações por extenso e assinadas, sobre questões evangélicas.

4º) "O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo" decorre do Livro IV, "Esperanças e Consolações" em que são estudados os problemas referentes às penas e aos gozos terrenos e futuros, inclusive com a discussão do dogma das penas eternas e a análise de outros dogmas, como o da ressurreição da carne, e os do paraíso, inferno e purgatório.

5º) "A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo", relaciona-se aos capítulos II, III e IV do Livro I, e capítulo IX, X e XI do Livro II, assim como a parte dos capítulos do Livro III que tratam dos problemas genésicos e da evolução física da Terra. Por seu sentido amplo, que abrange ao mesmo tempo as questões da formação e do desenvolvimento do globo terreno, e as referentes a passagens evangélicas e escriturísticas, esse livro da codificação se ramifica de maneira mais difusa que os outros, na estrutura da obra-mater.

6º) O pequeno livro introdutório ao estudo da doutrina, "O que é o Espiritismo" que não se inclui propriamente na codificação, também ele está diretamente relacionado com "O Livro dos Espíritos", decorrendo da "Introdução" e dos "Prolegômenos".

7º) "Obras Póstumas", que representa o testamento doutrinário de Allan Kardec. Reúne os seus derradeiros escritos e as anotações íntimas, destinadas a servir mais tarde para a elaboração da História do Espiritismo que ele não pode realizar.

A codificação se apresenta, pois, como um todo homogêneo e conseqüente. À luz desse estudo, caem por terra as tentativas de separar de um ou outro livro do bloco da codificação, como possível expressão de uma forma diferente de pensamento. E note-se que as ligações aqui assinaladas, de maneira apenas formal, podem e devem ser esclarecidas em profundidade, por um estudo minucioso do conteúdo das diversas partes de "O Livro dos Espíritos", em confronto com os demais livros. Esse estudo exigiria, também, uma análise dos textos primitivos, como a primeira edição deste livro e a primeira de "O Livro dos Médiuns" e do "Evangelho", pois, como se sabe, todas essas obras foram ampliadas por Kardec depois de suas primeiras edições, sempre sob a assistência e orientação dos Espíritos.

Num estudo mais amplo e profundo, seria possível mostrar-se o desenvolvimento de certos temas, que apenas colocados pelo "O Livro dos Espíritos" vão ter a sua solução em obras posteriores. E o que se verifica, por exemplo, com as ligações do Cristianismo e o Espiritismo, que se definem completamente em "O Evangelho", ou com o problema controvertido da origem do homem, que vai ter a sua explicação definitiva em "A Gênese", ou ainda com as questões mediúnicas, solucionadas no "O Livro dos Médiuns', e as teológicas e escriturísticas, no "O Céu e o Inferno".

Convém notar, entretanto, que o desenvolvimento de todas essas questões não representa, em nenhum caso, a modificação dos princípios firmados neste livro. Às vezes, problemas apenas aflorados em "O Livro dos Espíritos" vão ser desenvolvidos de tal maneira em outras obras, que, ao lê-las, temos a impressão de encontrar novidades. A verdade, entretanto, é que neste livro eles já foram assinalados de maneira sintética. É o que ocorre, por exemplo, com o problema da evolução geral, definida por Leon Denis naquela frase célebre: "A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem". Veja-se, a este respeito, a definição do item 540 deste livro, que para maior fidelidade a reproduzimos. "É assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo. Admirável lei de harmonia, de que o vosso Espírito limitado ainda não pode abranger o conjunto!"

A Filosofia Espírita

Esta rápida apreciação da estrutura de "O Livro dos Espíritos", em suas ligações com as demais obras da codificação, parece-nos suficiente para mostrar que ele constitui, como dissemos, no início, o arcabouço filosófico do Espiritismo. Contém, segundo Kardec declarou no frontispício, "Os princípios da Doutrina Espírita". É, portanto, o seu tratado filosófico. Embora não tenha sido elaborado em linguagem técnica, e não observe os rigores da minuciosa exposição filosófica, é todo um complexo e amplo sistema de filosofia que nele se expõe.

Ao apreciá-lo, sob esse aspecto, devemos considerar que Kardec não era um filósofo, mas um educador, um especialista em pedagogia, discípulo emérito de Pestalozzi. Daí o aspecto antes didático do que propriamente de exposição filosófica que imprimiu ao livro.

Em segundo lugar, a obra não foi propriamente escrita por ele, mas elaborada com as respostas dadas pelos Espíritos às suas perguntas, nas sessões mediúnicas, com as meninas Boudin e Japhet, e mais tarde com outros médiuns.

Em terceiro lugar, o livro não se destinava a formar escola filosófica, a conquistar os meios especializados, mas apenas a divulgar os princípios da doutrina de maneira ampla, convocando os homens em geral para o estudo de uma realidade superior a todas as elucubrações do intelecto.

Em quarto lugar, o próprio Kardec teve o cuidado de advertir, nos "Prolegômenos", que evitava os prejuízos do espírito de sistema, como vemos neste trecho, em que se refere ao ensino dos Espíritos:

"Este livro é o compêndio dos seus ensinamentos. Foi escrito por ordem e sob ditado dos Espíritos superiores para estabelecer os fundamentos de uma filosofia racional, livre dos prejuízos do espírito de sistema".

Como se vê, "estabelecer os fundamentos de uma filosofia racional, livre dos prejuízos do espírito de sistema" e não criar uma nova escola filosófica, o que implicaria toda uma rígida sistematização. Esse propósito vem ao encontro do pensamento dos filósofos modernos, como vemos, por exemplo, em Ernest Cassirer, que em sua "Antropologia Filosófica", referindo-se à inconveniência dos sistemas, diz: "Cada teoria se converte num leito de Procusto, em que os fatos empíricos são obrigados a se acomodar a um padrão preconcebido". Max Scheller, por sua vez, comenta: "Dispomos de uma antropologia científica, outra filosófica e outra teológica, que se ignoram entre si". Kardec esquivou-se precisamente a isso, tanto mais que o espírito de sistema seria a própria negação dos objetivos da doutrina.

Quanto ao problema da linguagem técnica, não devemos nos esquecer de que o livro se destinava ao grande público, e não apenas aos especialistas. Podemos lembrar, a propósito, o exemplo de Descartes, que escreveu o seu "Discurso do Método" em francês, quando o latim era a língua oficial da filosofia, porque desejava dar-lhe maior divulgação. Mesmo que Kardec fosse um filósofo especializado, a linguagem técnica não serviria aos seus propósitos nesta obra.

Quanto ao método didático, não seria este o primeiro livro de filosofia a dele se socorrer. Podemos lembrar, por exemplo, "A Ética", de Espinosa. Kardec inicia este livro com a definição de Deus, como Espinosa naquele, e se não segue a forma geométrica de exposição, por meio de definições, axiomas, proposições e escólios, segue entretanto a forma lógica, através de perguntas e respostas, intercaladas de comentários e explicações. Há, aliás, curiosas similaridades de estrutura, de posição, de ligações históricas e de princípios, entre esses dois livros, reclamando estudo mais aprofundado. Como as há entre o que se pode chamar a revolução cartesiana e o Espiritismo, a começar pelos famosos sonhos de Descartes e a sua convicção de haver sido inspirado pelo Espírito da Verdade.

Yvonne Castellan, num breve, falho, às vezes gritantemente injusto, mas em parte simpático estudo da doutrina referindo-se ao "O Livro dos Espíritos", mostra que: "O sistema é completo, e compreende uma metafísica, inteiramente repleta de considerações físicas ou genéticas, e uma moral". Numa análise mais séria, a autora teria visto que a estrutura é mais complexa do que supôs.

O livro começa pela metafísica, passando depois à cosmologia, à psicologia, aos problemas propriamente espíritas da origem e natureza do espírito e suas ligações com o corpo, bem como aos da vida após a morte, para chegar, com as leis morais, à sociologia e à ética, e concluir, no Livro IV, com as considerações de ordem teológica sobre as penas e gozos futuros e a intervenção de Deus na vida humana. Todo um vasto sistema, sem as exigências opressoras ou os prejuízos do espírito de sistema, numa estrutura livre e dinâmica, em que os problemas são postos em debate.

Lembrando-nos dos primórdios do Cristianismo, podemos dizer que o Espiritismo tem sobre ele uma vantagem, no tocante ao problema filosófico. A simplicidade de "O Livro dos Espíritos" não chega ao ponto de nos obrigar a adaptar sistemas antigos aos nossos princípios, como aconteceu com Santo Agostinho e São Tomaz, em relação a Platão e Aristóteles, para a criação da chamada filosofia cristã. O Espiritismo já tem o seu próprio sistema, na forma ideal que o futuro consagrará, e cujas vantagens vimos acima.

Por outro lado, é curioso notar que "O Livro dos Espíritos" se enquadra numa das formas clássicas e mais fecundamente livres da tradição filosófica: o diálogo. Por tudo isso, vê-se que Kardec, sem ser o que se pode chamar um filósofo profissional, tinha muita razão ao afirmar, no capítulo VI da "Conclusão", referindo-se ao Espiritismo: "Sua força está na sua filosofia, no apelo que faz à razão e ao bom senso".

A Dialética Espírita

Hegel definiu a estrutura e a função do diálogo, identificando as suas leis com as do próprio ser: tese, antítese e síntese. Mais tarde, Marx e Engels deslocaram o diálogo dessa concepção ontológica, para lhe dar um sentido materialista e revolucionário. Coube a Hamelin, entretanto, defini-lo em seu aspecto mais fecundo, como um processo de fusão necessária da tese e da antítese, na produção de uma nova idéia ou nova tese.

Este, a nosso ver, é o processo dialético do Espiritismo, que em vez de dar ênfase à contradição em si, à luta dos opostos, prefere dá-la à harmonia, à fusão dos contrários, para uma nova criação. E é nesse sentido que se desenvolve o diálogo no "O Livro dos Espíritos".

Nunca houve, aliás, um diálogo como este. Jamais um homem se debruçou, com toda a segurança do homem moderno, nas bordas do abismo do incognoscível, para interrogá-lo, ouvir as suas vozes misteriosas, contradizê-lo, discutir com ele, e afinal arrancar-lhe os mais íntimos segredos. E nunca, também, o abismo se mostrou tão dócil, e até mesmo desejoso de se revelar ao homem em todos os seus aspectos.

Sócrates ouvia as vozes do seu "daimónion" e discutia com o Oráculo de Delfos. Mas Kardec não se limitou a isso: foi mais longe, dialogando com todo o mundo invisível, analisando rigorosamente as suas vozes, ouvindo inferiores e superiores, para descobrir as leis desse mundo, as formas de vida nele existentes, o mecanismo das suas relações com o nosso.

O método dialético é o processo natural do desenvolvimento, tanto do pensamento como de todas as coisas. Emmanuel, certa vez, comparou o Velho Testamento a um apelo dos homens a Deus, e o Novo Testamento, à resposta de Deus. Aceitando essa imagem, podemos dizer que "O Livro dos Espíritos" é a síntese desse diálogo, é o momento em que segundo a definição de Hamelin, o apelo e a resposta se fundem na compreensão espiritual, abrindo caminho a uma nova fase da vida terrena.

A Legitimidade do Livro

Ao publicar "A Gênese", em 1868, Kardec pode acentuar que "O Livro dos Espíritos", lançado dez anos antes, continuava tão sólido como então. Nenhum dos seus princípios fundamentais havia sido abalado pela experiência, todos permaneciam em pé. Hoje, cem anos depois, se ainda vivesse entre nós, o codificador poderia dizer o mesmo.

E isso num século em que o mundo se transformou de maneira vertiginosa, em que a chamada ciência positiva foi revirada de ponta a ponta, em que as concepções filosóficas sofreram tremendos impactos. Há conceitos que, à primeira vista, parecem desmentidos, ou pelo menos postos em dúvida pela ciência. É o caso do fluido universal, mas somente quando o confundimos com o conceito científico do éter espacial.

Na verdade, o desenvolvimento da ciência se processa exatamente na direção dos princípios espíritas. A desintegração da matéria pela física nuclear, a concepção da matéria como concentração de energia, a percepção cada vez mais clara de uma estrutura matemática do universo, a conclusão a que alguns cientistas são forçados a chegar, de que, por trás da energia parece haver outra coisa, que seria o pensamento, — tudo isso nos mostra que Kardec tinha razão ao proclamar que nem Deus, nem a religião verdadeira, nem portanto o Espiritismo, tinham nada a perder com o avanço da ciência. Pelo contrário, só tem a ganhar, como os fatos demonstram, dia a dia.

Essa segurança dos princípios espíritas decorre da legitimidade da fonte espiritual deste livro, da pureza dos seus meios de transmissão mediúnica, da precisão do método kardeciano.

A fonte, como se vê pela revelação espontânea e inesperada do Espírito da Verdade a Kardec, segundo as anotações autobiográficas de "Obras Póstumas", e pela confirmação posterior de tantos outros Espíritos, ou como se pode constatar, lógica e historicamente, pelo processo de restabelecimento do Cristianismo, que o Espiritismo realiza, é a mesma de que precedeu aquele. Não é Kardec, nem este ou aquele Espírito em particular, nem um grupo de homens, mas toda a falange do Espírito da Verdade, enviada à Terra em cumprimento da promessa de Jesus — a fonte espiritual de "O Livro dos Espíritos".

Quanto aos meios mediúnicos de transmissão, correspondiam à pureza da fonte. As médiuns que serviram a esse trabalho foram duas meninas, Caroline e Julie Boudin, de 16 e 14 anos respectivamente, a que mais tarde se juntaria outra menina, a srta. Japhet, no processo de revisão do livro. As reuniões se realizavam na casa da família Boudin, na intimidade do lar, entre pessoas amigas, e as respostas dos Espíritos eram transmitidas por meio da cesta de bico, a que se adaptava um lápis. As meninas punham as mãos sobre a cesta e esta se movimentava, escrevendo as mensagens, com absoluta impossibilidade de ação dos médiuns na escrita. Mais tarde, seguindo instruções dos próprios Espíritos, Kardec submete o livro ao controle de outros médiuns, mas todos escolhidos criteriosamente. Além disso, as respostas dos Espíritos eram confrontadas com as comunicações obtidas em outros grupos, em obediência ao princípio da universalidade das revelações, que veremos a seguir.

O método de Kardec transformou-se no método da própria doutrina, e tem, na sua própria simplicidade, a garantia da sua eficiência. Podemos resumi-lo assim:

1º) Escolha de colaboradores mediúnicos insuspeitos, tanto do ponto de vista moral, quanto da pureza das faculdades e da assistência espiritual;

2º) Análise rigorosa das comunicações, do ponto de vista lógico, bem como do seu confronto com as verdades científicas demonstradas, pondo-se de lado tudo aquilo que não possa ser logicamente justificado;

3º) Controle dos Espíritos comunicantes, através da coerência de suas comunicações e do teor de sua linguagem;

4º) Consenso universal, ou seja, concordância de várias comunicações, dadas por médiuns diferentes, ao mesmo tempo e em vários lugares, sobre o mesmo assunto.

Armado desses princípios, escudado rigorosamente nesse critério, Kardec pode realizar a difícil tarefa de reunir a série de informações que lhe permitiram organizar este livro. Interessante lembrar que esse mesmo critério, em parte, havia sido ensinado por João, em sua primeira epístola (IV:1) bem como pelo apóstolo Paulo, em sua primeira epístola aos coríntios. As raízes do método kardeciano estão no Novo Testamento.

Não se pode confundir, porém, o método doutrinário com os métodos de investigação científica dos fenômenos espíritas. No trato mediúnico, a premissa da existência do Espírito e da possibilidade da comunicação já está firmada. O que importa é o controle da legitimidade da comunicação. Na pesquisa científica, tudo ainda está para ser descoberto e provado. As investigações científicas podem variar infinitamente de processos e métodos, de acordo com os investigadores. As sessões mediúnicas não podem fugir ao método kardeciano, que se comprovou na prática, há um século, o único realmente eficiente, e que procede, como vimos, das reuniões mediúnicas da era apostólica.

Problemas secundários, como o da assinatura de certas comunicações por nomes célebres, são explicados por Kardec na "Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita" capítulos XI e XII, para os quais remetemos o leitor interessado. Algumas pessoas perguntam por que motivo Kardec não ocultou os nomes que subscrevem os "Prolegômenos", publicando apenas a mensagem, como fez com a maioria das respostas deste livro. Essas assinaturas, segundo dizem, afastam da obra muitos leitores, que a consideram mistificação grosseira.

A explicação está na sinceridade de Kardec e na sua fidelidade aos Espíritos que lhe revelaram a doutrina. Ocultar-lhes os nomes seria deixar uma possibilidade de lhe atribuírem a obra, e ele sempre fez questão de precisar que não passava de um colaborador dos autores espirituais. Além disso, suas explicações a respeito são absolutamente claras, para todos os que estão aptos a compreender o fenômeno espírita em sua plenitude.

O Problema Científico

Kardec examina o problema científico do Espiritismo no capítulo VII da "Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita". Vejamos um trecho bastante esclarecedor, que o leitor encontrará no lugar próprio desta edição: "A ciência propriamente dita, como ciência, é incompetente para se pronunciar sobre a questão do Espiritismo: não lhe cabe ocupar-se do assunto e seu pronunciamento a respeito, qualquer que seja, favorável ou não, nenhum peso teria."

Não obstante, Kardec insiste no caráter científico da doutrina. Caráter próprio, como ele explica nos capítulos citados, pois se trata de uma ciência que deve ter os seus próprios métodos, uma vez que o seu objeto não é a matéria, mas o espírito.

Por que essa insistência no caráter científico? Porque "O Livro dos Espíritos" vem abrir uma nova era no estudo dos problemas espirituais. Até a sua publicação, esses problemas eram tratados de maneira empírica ou apenas imaginosa. As religiões, com seus intrincados sistemas teológicos, ou as ordens ocultas, as corporações místicas e teosóficas, deslocavam os problemas do espírito para o terreno do mistério. O conhecimento humano se dividia, para nos servirmos das expressões de Santo Agostinho, na "iluminação divina" e na "experiência".

O Espiritismo veio modificar essa ordem de coisas, mostrando a possibilidade de encararmos os problemas espirituais através da experiência agostiniana, ou seja, através da mesma razão que aplicamos aos problemas materiais. Nesse sentido, "O Livro dos Espíritos" se apresenta como um divisor de águas. Tudo aquilo que, antes dele, constitui o espiritualismo, pode ser chamado "espiritualismo utópico", e tudo o que vem com ele e depois dele, seguindo a sua linha doutrinária, "espiritualismo científico", como fazem os marxistas com o socialismo de antes e depois de Marx.

Esta a posição especial de "O Livro dos Espíritos", no plano da cultura espiritual.

Com ele, o espírito e os seus problemas sairam do terreno da abstração, para se tornarem acessíveis à investigação racional, e até mesmo à pesquisa experimental. O sobrenatural tornou-se natural. Tudo se reduziu a uma questão de conhecimento das leis que regem o universo.

A tese espinosiana da impossibilidade do milagre, como violação da ordem natural, veio comprovar-se nas suas demonstrações. E as leis dessa ordem, como vemos no capítulo primeiro do Livro III, são todas naturais, quer digam respeito às relações materiais, quer às espirituais e morais. Não existe o sobrenatural, senão para a ignorância humana das leis naturais, uma vez que o universo é um sistema único, e todas as suas partes se entrosam na grande estrutura.

O Problema Religioso

A natureza religiosa de "O Livro dos Espíritos", ressalta desde as suas primeiras páginas. Como já vimos, Kardec o inicia pela definição de Deus. Mas o Deus espírita não é antropomórfico, não é um ser constituído à imagem e semelhança do homem, como o das religiões. A definição espírita é incisiva: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas."

Assim como, para Espinosa, Deus é a substância infinita, para Kardec é a inteligência infinita. Mas assim como erraram os que confundiram a substância espinosiana com o Universo, assim também se enganam os que confundem a inteligência infinita com o homem finito, e a religião espírita com os formalismos religiosos.

Os atributos de Deus não se confundem com os precários atributos humanos: ele é eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom. Deus não se confunde com o Universo, pois é o criador e o mantenedor do Universo. Entretanto, ao tratar da justiça de Deus, vemos Kardec empregar uma terminologia antropomórfica, falando em castigos e recompensas, o que tem dado motivo a afirmar-se que o Deus espírita é semelhante ao das religiões.

A explicação desse fato, que à primeira vista parece contraditório, está na questão décima: "O homem pode compreender a natureza íntima de Deus? — Não. Falta-lhe, para tanto, um sentido". E logo a seguir vem a explicação de Kardec a respeito. Mais adiante, no item treze, encontramos a resposta de que os atributos de Deus, a que nos referimos acima, são apenas uma interpretação humana, aquilo que o homem pode conceber a respeito de Deus, no seu estágio atual de evolução. Kardec, portanto, emprega a linguagem que podemos empregar, de maneira compreensiva, para tratar de Deus. Não humaniza a Deus, mas apenas o coloca ao alcance da compreensão humana.

Não obstante, a natureza suprema de Deus, como inteligência infinita e causa primária, é sempre resguardada. Vemos isso em todo o primeiro capítulo e em muitas outras passagens do livro. No capítulo sobre o Panteísmo, qualquer confusão entre o Criador e a Criação foi afastada. O Deus espírita não é antropomórfico, mas também não é panteísta. Por outro lado, "O Livro dos Espíritos" veda imediatamente o caminho às especulações ilusórias e imaginosas sobre a natureza de Deus.

Uma vez que falta ao homem o meio de compreendê-lo, inútil será tentar a sua definição através de suposições ingênuas ou atrevidas. É o que vemos no item 14º do rimeiro capítulo, no estabelecimento de um princípio que define de maneira absoluta a posição do Espiritismo em face do problema, separando-o decisivamente de todas as escolas de teologia especulativa ou de ocultismo de qualquer espécie. Vejamos esse trecho fundamental, podendo o leitor encontrá-lo no lugar próprio deste volume: "Deus existe, não o podeis duvidar, e isso é o essencial. Acreditai no que vos digo e não queirais ir além. Não vos percais num labirinto, de onde não podereis sair. Isso não vos tornaria melhores, mas talvez um pouco mais orgulhosos, porque acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai, pois, de lado, todos esses sistemas; tendes que vos desembaraçar de muitas coisas que vos tocam mais diretamente. Isto vos será mais útil do que querer penetrar o que é impenetrável".

Deus, como inteligência infinita ou suprema, é o que é. Não comporta especulações ociosas, definições imaginosas. O homem deve conter-se nos limites de si mesmo, cuidar das suas imperfeições, melhorar-se. Basta-lhe saber que Deus existe, e que é justo e bom. Disso ele não pode duvidar, porque "pela obra se reconhece o obreiro", a própria natureza atesta a existência de Deus, sua própria consciência lhe diz que ele existe, e a lei geral da evolução comprova a sua justiça e a sua bondade. Descartes dizia que Deus está na consciência do homem como a marca do obreiro na sua obra. Os Espíritos confirmam esse princípio, mas vão além, mostrando que a marca do obreiro está em todas as coisas, na natureza inteira. A negação de Deus é, para o Espiritismo, como a negação do Sol. O ateu, o descrente, não é um condenado, um pecador irremissível, mas um cego, cujos olhos podem ser abertos, e realmente o serão. Porque Deus é necessariamente existente, segundo o princípio cartesiano. Nada se pode entender sem Deus. Ele é o centro e a razão de ser de tudo quanto existe. Tirar Deus do Universo é como tirar o Sol do nosso sistema. Simples absurdo.

Mas, pelo fato de não ter a forma humana, de não se assemelhar ao homem, no tocante à constituição física deste, não se segue que Deus esteja distante do homem e indiferente a ele. O Deus espírita se assemelha ao aristotélico, pelo seu poder de atração, mas se afasta dele, quanto à indiferença em relação ao cosmos. Porque Deus é providência, Deus é amor, é o criador e o pai de tudo e de todos.

O Universo se define por uma tríade, semelhante às tríades druídicas: Deus, espírito e matéria. Vemos isso no item 27, quando Kardec pergunta se existem dois elementos gerais, o espírito e a matéria, e os Espíritos respondem: "Sim, e acima de ambos, Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Essas três coisas são o princípio de tudo o que existe, a trindade universal". A matéria, porém, não é só o elemento palpável, pois há nela o fluido universal, o seu lado fluídico, que desempenha o papel de intermediário entre o plano espiritual e o propriamente material.

Diante dessa concepção, surge um problema de ordem teológica e escriturística. Se Deus não se assemelha ao homem, como entender-se a passagem bíblica segundo a qual ele criou o homem à sua imagem e semelhança? A explicação vem no item 88, quando Kardec pergunta pela forma do Espírito, não daquele que ainda está revestido do corpo espiritual ou perispírito, mas do Espírito puro.

Vejamos a pergunta e a resposta no original: "Os Espíritos têm uma forma determinada, limitada e constante? — Aos vossos olhos, não; aos nossos, sim. Eles são, se o quiserdes, uma flama, um clarão ou uma centelha etérea". Como se vê, o homem, na sua essência, — naquilo unicamente em que ele pode assemelhar-se a Deus: — não é um animal de carne e osso, nem mesmo uma forma humana em corpo espiritual, mas uma centelha etérea. Foi assim que Deus o fez à sua imagem e semelhança.

Colocando o problema fundamental de Deus e da criação, "O Livro dos Espíritos" entra pelo controvertido terreno da destinação humana. Sua concepção deísta do Universo é necessariamente teológica. Tudo avança para Deus, do átomo ao arcanjo, como vimos no item 540, e à frente dessa marcha, no plano terreno, encontra-se o homem. Vêmo-lo numa escala evolutiva, na terra como no espaço: do imbecil ao sábio, do criminoso ao santo.

A "escala espírita", que começa no item 100, nos oferece uma visão esquemática dessa escada de Jacó, que vai da terra ao céu. O estudo da "progressão dos espíritos" que começa no item 114, nos mostra a necessidade do esforço próprio para que o Espírito se realize a si mesmo, revelando-nos ao mesmo tempo o papel da Providência, sempre amorosamente voltada para as criaturas. No estudo sobre "anjos e demônios", que se inicia no item 128, defrontamo-nos com um debate teórico sobre passagens evangélicas. O problema da justiça de Deus é equacionado à luz dos ensinos de Cristo, no seu verdadeiro sentido.

A seguir, "O Livro dos Espíritos" trata da encarnação dos Espíritos e da finalidade da vida terrena. Combate o materialismo, mostrando a sua inconsistência. Não são os estudos que levam o homem a ele, não é o desenvolvimento do conhecimento que o torna materialista, mas apenas a sua vaidade. É o que vemos no item 148: "Não é verdade que o materialismo seja uma conseqüência desses estudos. É o homem que deles tira uma falsa conseqüência, pois ele pode abusar de tudo, mesmo das melhores coisas".

Kardec corrobora a tese dos Espíritos: o materialismo é uma aberração da inteligência. É o que nos diz no início do seu comentário: "Por uma aberração da inteligência, há pessoas que não vêem nos seres orgânicos nada mais que a ação da matéria, e a esta atribuem todos os nossos atos".

E assim prossegue o livro, todo ele impulsionado pelo sopro do espírito, impregnado pelo sentimento religioso, e mais particularmente, pelo sentido cristão desse sentimento. Quando, no item 625, Kardec pergunta qual o tipo humano mais perfeito que Deus ofereceu ao homem, para lhe servir de guia e modelo, a resposta é incisiva: "Vede Jesus". E Kardec comenta: "Jesus é para o homem o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque ele estava animado do espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra".

A religião espírita se traduz em espírito e verdade. O que interessa a Deus não é a precária exterioridade dos ritos e do culto convencional, quase sempre vazio: é o pensamento e o sentimento do homem. A adoração da divindade é uma lei natural, tanto quanto a lei de gravidade. O homem gravita para Deus como a pedra gravita para a Terra e esta para o Sol. Mas as manifestações exteriores da adoração não são necessárias.

No item 653 vemos a clara resposta dos Espíritos a respeito: "A verdadeira adoração é a do coração. Em todas as vossas ações, pensai sempre que o Senhor vos observa". A vida contemplativa é condenada, porque inútil, assim também a monacal, pois Deus não quer o cultivo egoísta do sentimento religioso, mas a prática da caridade, a experiência viva e constante do amor, através das relações humanas.

"O Livro dos Espíritos" não deixa de lado o problema do culto religioso, que necessita manifestar a sua religiosidade: essa manifestação se verifica nas formas naturais de adoração, uma das quais é a prece. Pela prece o homem pensa em Deus, aproxima-se dele, põe-se em comunicação com ele. É o que vemos a partir do item 658. Pela prece, o homem pode evoluir mais depressa, elevar-se mais rapidamente sobre si mesmo. Mas a prece também não pode ser apenas formal. Por ela, podemos fazer três coisas: louvar, pedir e agradecer a Deus, mas desde que o façamos com o coração, e não apenas com os lábios.

Temos assim a religião espírita, que mais tarde se definirá de maneira mais objetiva ou direta em "O Evangelho segundo o Espiritismo". Uma religião psíquica, como a chamou Conan Doyle, equivalente à "religião dinâmica" de Bergson. No capítulo V da "Conclusão" Kardec afirma: "O Espiritismo é forte porque se apóia nas próprias bases da religião: Deus, a alma, as penas e recompensas futuras, e porque sobretudo mostra essas penas e recompensas como conseqüências naturais da vida terrena, oferecendo um quadro do futuro em que nada pode ser contestado pela mais exigente razão". Enfim: religião positiva, baseada nas leis naturais, destituída de aparatos misteriosos e de teologia imaginosa.

Para completar o quadro religioso de "O Livro dos Espíritos" temos ainda o capítulo XII do Livro III e todo o Livro IV. No capítulo referido, Kardec trata do aperfeiçoamento moral do homem, encara os problemas referentes às virtudes e aos vícios, às paixões, ao egoísmo, define por fim o caráter do homem de bem e conclui com uma mensagem de Santo Agostinho sobre a maneira de nos conhecermos a nós mesmos. No Livro IV temos um capítulo sobre as penas e gozos terrenos, que é um código da vida moral na Terra, verdadeiro catecismo da conduta espírita, e um capítulo sobre as penas e gozos futuros, sobre as conseqüências espirituais do nosso comportamento terreno.

Estudos Futuros

Este, em linhas gerais, o livro que a 18 de abril deste ano(*) completou cem anos, e cujo primeiro centenário foi celebrado em todo o mundo civilizado, pelos adeptos do Espiritismo. Sua estrutura, como se vê, o coloca entre os tratados filosóficos, e seu conteúdo se relaciona com todos os aspectos fundamentais do conhecimento. Sua simplicidade aparente é tão ilusória como a da superfície tranqüila de um grande rio.

Como no "Discurso do Método" de Descartes, a clareza do texto pode enganar o leitor desprevenido. As coisas mais profundas e complexas aparecem na linguagem mais direta e simples, e a compreensão geral do livro só pode ser alcançada por aquele que for capaz de apreender todos os nexos entre os diversos assuntos nele tratados.

Até hoje, cem anos depois de sua publicação, "O Livro dos Espíritos" vem sendo lido e meditado, no mundo inteiro, mas pouco se tem cuidado de analisá-lo em suas múltiplas implicações e em sua mais profunda significação. Acreditamos que o segundo século do Espiritismo, que se iniciou neste ano, será assinalado por uma atitude mais consciente dos próprios espíritas em face deste livro, e que estudos futuros virão revelar, cada vez de maneira mais clara, o seu verdadeiro papel na história do conhecimento.

Para concluir, lembremos que sir Oliver Lodge, o grande físico inglês, uma das mais altas expressões de cultura científica do nosso tempo, considerou o Espiritismo, no seu livro sobre "A imortalidade pessoal" como "uma nova revolução copérnica". E Leon Denis, o sucessor de Kardec, legítima expressão da cultura francesa, proclamou no Congresso Espírita Internacional de Paris, em 1925, e no seu livro "Le Genie Celtique et le Monde Invisible" de 1927, que o Espiritismo tende a reunir e a fundir, numa síntese grandiosa, todas as formas do pensamento e da ciência. >>

J. Herculano Pires

(*)Esta introdução foi redigida pelo tradutor por ocasião da edição especial da LAKE, comemorativa do centenário de "O Livro dos Espíritos', em 18 de abril de 1957. (Nota da Editora)

LAKE - Livraria Allan Kardec Editora


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