1 - KARDEC, Allan: O
Evangelho segundo o Espiritismo. Introdução. III. NOTÍCIAS HISTÓRICAS
Para compreender
melhor algumas passagens dos Evangelhos, é necessário conhecer o valor de
certas palavras, que neles são empregadas freqüentemente e que caracterizam a
situação da sociedade judaica e dos costumes naquela época.
Essas palavras, não
tendo mais, para nós, o mesmo sentido, muitas vezes foram mal interpretadas e,
por isso mesmo, criaram muitas dúvidas. A compreensão do seu significado
explica, além disso, o verdadeiro sentido de certas máximas que, à primeira
vista, parecem estranhas.
2 - KARDEC, Allan: O
Evangelho segundo o Espiritismo: CAPÍTULO XXIII
ESTRANHA MORAL
3.
Certas palavras, aliás muito raras, atribuídas ao Cristo, fazem tão singular
contraste com o seu modo habitual de falar que, instintivamente, se lhes repele
o sentido literal, sem que a sublimidade da sua doutrina sofra qualquer dano.
Escritas depois de sua morte, pois que nenhum dos Evangelhos foi redigido
enquanto ele vivia, lícito é acreditar-se que, em casos como este, o fundo do
seu pensamento não foi bem expresso, ou, o que não é menos provável, o sentido
primitivo, passando de uma língua para outra, há de ter experimentado alguma
alteração. Basta que um erro se haja cometido uma vez, para que os copiadores o
tenham repetido, como se dá freqüentemente com relação aos fatos históricos.
A
língua hebraica não era rica e continha muitas palavras com várias
significações.
Tal,
por exemplo, a que no Gênese, designa as fases da criação: servia,
simultaneamente, para exprimir um período qualquer de tempo e a revolução
diurna. Daí, mais tarde, a sua tradução pelo termo dia e a crença de que
o mundo foi obra de seis vezes vinte e quatro horas. Tal, também, a palavra com
que se designava um camelo e um cabo, uma vez que os cabos eram
feitos de pêlos de camelo. Daí o haverem-na traduzido pelo termo camelo, na
alegoria do buraco de uma agulha.
Cumpre,
ao demais, se atenda aos costumes e ao caráter dos povos, pelo muito que
influem sobre o gênio particular de seus idiomas. Sem esse conhecimento, escapa
amiúde o sentido verdadeiro de certas palavras. De uma língua para outra, o
mesmo termo se reveste de maior OU menor energia. Pode, numa, envolver injúria
ou blasfêmia, e carecer de importância noutra, conforme a idéia que suscite. Na
mesma língua, algumas palavras perdem seu valor com o correr dos séculos. Por
isso é que uma tradução rigorosamente literal nem sempre exprime perfeitamente
o pensamento e que, para manter a exatidão, se tem às vezes de empregar, não
termos correspondentes, mas outros equivalentes, ou perífrases.
Estas
notas encontram aplicação especial na interpretação das Santas Escrituras e, em
particular, dos Evangelhos. Se se não tiver em conta o meio em que Jesus vivia,
fica-se exposto a equívocos sobre o valor de certas expressões e de certos
fatos, em conseqüência do hábito em que se está de assimilar os outros a si
próprio. Em todo caso, cumpre despojar o termo odiar da sua acepção
moderna, como contrária ao espírito do ensino de Jesus. (Veja-se também o cap.
XIV, nº 5 e seguintes.)
3 - KARDEC, Allan: O Evangelho segundo o
Espiritismo:
CAPÍTULO XIV
HONRAI
A VOSSO PAI E A VOSSA MÃE
6.
Singulares parecem algumas palavras de Jesus, por contrastarem com a sua
bondade e a sua inalterável benevolência para com todos. Os incrédulos não
deixaram de tirar daí uma arma, pretendendo que ele se contradizia. Fato,
porém, irrecusável é que sua doutrina tem por base principal, por pedra
angular, a lei de amor e de caridade. Ora, não é possível que ele destruísse de
um lado o que do outro estabelecia, donde esta conseqüência rigorosa: se certas
proposições suas se acham em contradição com aquele princípio básico, é que as
palavras que se lhe atribuem foram ou mal reproduzidas, ou mal compreendidas,
ou não são suas.